Moscas volantes…alguns nem percebem, outros não conseguem conviver!

Tão incômodo quanto o extremo desconforto visual é a convivência diária com outros de nós que não podem avaliar o que nunca sentiram ou viram.

Qualquer um entende e consegue avaliar a angústia daquele que tem uma fratura exposta ou um ferimento que sangra ou está com muita febre. Essas são situações que todos já vimos ou sentimos de perto. Não é algo subjetivo.

Você é capaz de ler num carro em movimento? Consegue viajar olhando as paisagens que mudam rapidamente ou mesmo viajar sentado em direção contrária ao movimento da composição do trem ou do metrô? Não tem enjôo em viagens de barco ou navio de pequeno porte? Então você não sabe do que eu estou falando. Esse texto não acrescentará nada a você e não será uma leitura interessante, talvez.

Não é incomum indivíduos que têm enjôo de movimento (“cinetose”) ouvirem desde crianças que são “enjoados, chatos, sensíveis demais ou pessoas “fracas””. É comum e até compreensível: só conseguimos entender ou sentir empatia em relação àquilo que já experimentamos. Por isso nos agrupamos de forma a reunir iguais a nós. Formamos “turmas”, pertencemos a “tribos”: yuppies, nerds, punks, patricinhas/mauricinhos,etc. Também por isso existem os “grupos de ajuda”, na maioria das vezes criados por portadores, parentes e/ou cuidadores de indivíduos com uma determinada doença ou disfunção.

“Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele” é voz corrente e sábio ditado. Conhecer em profundidade o que nos aflige (seja desconforto físico ou emocional) nos ajuda a conviver com. Ignorá-lo é quase sempre impossível!

No caso das “moscas volantes”, me refiro aqui aos 5% dos indivíduos em que os “floaters” se tornam um problema tão importante (porque constante e de difícil solução) que merece ser analisado mais de perto. Em geral são pessoas portadoras de disfunção vestibular periférica inata. Nesses indivíduos a náusea, tonteira e sudorese fria podem acompanhar muitas vezes a tentativa de manter os dois olhos abertos em presença de “floaters” densos próximos ao eixo visual.

Em alguns momentos do dia ou em determinadas atividades discriminativas visuais, artifícios óticos e visuais podem ser de grande auxilio como na leitura, no uso do computador ou mesmo ao assistir TV. Em alguns dias a gente percebe um avanço na tolerância a essa nova realidade visual. Em outros há um retrocesso e nos sentimos bem pior. É um processo…mais lento ou mais rápido.No final das contas depende de cada um de nós.

O que acontece é que chegam ao córtex (cérebro) imagens diferentes enviadas por cada olho (uma com as moscas volantes e outra sem elas). Para um perfeito equilíbrio e ausência total de desconforto seria necessário que as imagens fossem iguais. Ou o mais próximo possível disso. Isso explica por que muitos têm desconforto ao assistir filmes com tecnologia tridimensional (disparidade de imagens para dar sentido de mais uma dimensão), utilizando óculos 3D. Eles referem náuseas, dores de cabeça, tonteira, sensação de cabeça “oca” ou “zonza”. Possivelmente são portadores de alguma disfunção vestibular (inata ou adquirida). Os mesmos filmes vistos através de óculos 2D que eliminam os efeitos em 3D, eliminam também (não por acaso) os sintomas desagradáveis desses indivíduos.

A imagem chega ao córtex para ser processada junto com informações proprioceptivas (ouvido, labirinto, pele) fornecidas por nossos outros sentidos (tato e audição, p.ex.) e imprimir sensação de equilíbrio ao corpo.

No caso das moscas volantes, enquanto não houver adaptação vestibular (labirinto) a essa nova realidade visual os sintomas podem estar presentes. Em maior ou menor intensidade. E é uma questão de tempo… Está na dependência ainda do tamanho da(s) imagem(ens) negativas agregadas  ao campo visual, assim como da proximidade dos “floaters” em relação ao eixo visual e da higidez vestibular de cada individuo.

Ao fator anatomo-funcional agrega-se ainda o fator psicológico. E é aqui eu me pergunto: “o que veio primeiro, o ovo ou a galinha”?

A ansiedade costuma ser característica presente em portadores de cinetose. Seria o “descompasso” do SNA (sistema nervoso autônomo) existente nesses mesmos indivíduos, o fator etiológico comum à ansiedade e aos sintomas do “enjôo de movimento”? Assim como uma irritabilidade excessiva pode estar presente nas fases iniciais da demência (Alzheimer), possivelmente pelo desarranjo seguido de uma reorganização atípica de algumas reações químicas envolvendo neurotransmissores,a plasticidade funcional neuronal (nesse caso positiva)seria responsável pela adaptação à nova realidade visual. Esta adaptação se traduziria na usência de sintomas em vigência de compensação funcional (o organismo vence mais uma vez!).

Mas, o que fazer enquanto isso?

Dois a cinco por cento dos indivíduos têm eventos neuro-vegetativos desencadeados pelo padrão inato de resposta vestibular aos estímulos visuais comuns (vistos pelos dois olhos), quando em movimento (nesse caso o desequilíbrio). Se além disso uma imagem nova, densa, próxima ao eixo visual e apenas percebida por um dos olhos se soma a esta já difícil equação, maior será a dificuldade deste individuo em se manter equilibrado (tanto no aspecto oftalmológico quanto físico e psicológico).

Mãos geladas, suor frio,náuseas, tonteiras, sensação de cabeça “oca ou vazia” e grande irritabilidade são sintomas que temos que aprender a tolerar (inicialmente) e aos poucos evitar.

Algo pode ser feito…mas o tempo continua sendo o melhor remédio. E no processo de ajuste, controlar a ansiedade e afastar-se (na medida do possível) das tarefas discriminativas visuais (leitura, uso de computador, ver TV em sala iluminada, p.ex. e/ou as que exijam alternância constante entre as distancias de longe e perto – pela maior movimentação dos “floaters” dentro dos olhos).

Sabemos que a vida não vai parar para que nos adaptemos à nova situação e depois possamos voltar ao ponto em que estávamos.Trabalho, vida social, família,a dinâmica da vida continua. E nós temos que nos inserir de alguma forma nela mesmo sendo angustiante em muitos momentos. A palavra de ordem é adaptação. E toda ajuda de que pudermos dispor é benvinda.

Óculos com oclusão total de uma das lentes (oclusor de silicone com ventosa), óculos com oclusão seletiva de uma das lentes (parte da lente recebe um película- fita isolante preta ou outro material que vede completamente a luz-  na parte da lente com a qual visualizamos a maior parte do tempo o floater que nos incomoda (mais à direita do centro,mais à esquerda, ou acima,etc).

Outra opção é usar o artifício de desenhar na lente imagens similares aos floaters para “iludir” o cérebro e minimizar o incomodo. Quando ele(s) se movimentar(em) (que é quando fica mais difícil de ser(em) tolerado(s), outras fibrilas desenhadas nas lentes reduzirão a percepção do movimento deles.

Existem muitas variações possíveis (do ponto de vista ótico) em relação a como minimizar a sensação de desconforto visual e vestibular. Nenhuma delas corresponde por si só a alternativa única a ser utilizada em cada caso.  Segundo observação durante as experimentações que fiz, a alternância entre os artifícios óticos, de acordo com a tarefa visual, foi a melhor forma de ter maior conforto no período inicial, logo após o episodio agudo de DPV.

Experimentei todas. Algumas me deram alivio em determinados momentos…em outros não. Existiram (e existirão ainda) dias melhores e dias piores. Nenhuma das medidas terapêuticas é eficiente o tempo todo nem satisfaz plenamente. São medidas paliativas, enquanto a natureza (organismo) tenta fazer o reparo da melhor forma possível.

A vitrectomia é um procedimento invasivo que parece bastante atrativo e “salvador”, à primeira vista. Ela eliminaria completamente as moscas volantes: a aspiração dos floaters removeria a causa dos fenômenos entópticos e devolveria a normalidade visual ao individuo. Fácil assim?

Existem riscos e benefícios… Afinal, é como tudo funciona, não é mesmo?

Não existe apenas bem ou mal. É tudo um pacote, um “combo”. O que prevalecerá ao longo do tempo ninguém sabe. A emenda será pior do que o soneto? Não saberemos se não experimentarmos, dirão uns e outros… Hoje eu ainda não quero pagar para ver.

Pode ser que com mais tempo de incomodo me exaspere e acabe me submetendo à vitrectomia a despeito dos possíveis efeitos colaterais. Quando (e se) o fizer será apenas após ter dado tempo suficiente ao organismo (e à homeostasia) para desenvolverem uma possibilidade de reequilíbrio visual.

Existe tempo para tudo. Nascer, crescer, adolescer, ficar adulto, dar origem a outra vida e assim por diante. Sempre podemos de alguma forma alterar a ordem das coisas, claro, mas em relação aos mecanismos naturais de manutenção da saúde e prevenção das doenças, tudo tem seu tempo certo e a ordem dos fatores pode alterar sim o produto final.

Por mais atraente que nos pareça o rápido retorno à “normalidade”, sempre haverá um preço a ser pago. E talvez não estejamos preparados para uma eventual situação bem pior do que a original. Em outras palavras, “a emenda pode sair pior do que o soneto”, no longo prazo.

Do ponto de vista da binocularidade e do conforto visual voltei a engatinhar. Espero estar correndo logo, logo!

Essa reflexão a respeito dos floaters se deveu à necessidade de dividir com outros uma experiência pessoal recente. Espero que lhes seja de alguma ajuda!

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13 comentários

  1. Olá estou sofrendo com as “moscas volantes”a cerca de três meses, começou com com um incômodo quanto a claridade, depois um ponto no olho direito, agora são pontos, riscos nos dois olhos. Tudo isso depois de um período de estresse. Minha médica disse que esta tudo bem com minha retina, mas vivo com medo de um descolamento repentino.Tento não enlouquecer com isso, até porque, quanto mais me estresso com ‘ sso, parece que piora, alguns dias são bons e outros não, mas incomoda muito. Tenho tonturas e a sensação que vc descreve, é como se a cabeça estivesse “oca”. Até então me consultei com Neuro, fiz exames e nada, até encontrar seu artigo, não entendia o porque dessa sensação de tontura. Da até um certo alívio, saber que não estou sozinha nessa luta. Seu artigo foi um bálsamo para minha mente desesperada. Obrigada e como você mesmo disse, poderia ser pior.
    Por mais que você tente explicar para as outras pessoas o que se passa, só quem está passando pelo mesmo problema pode entender como nos sentimos. Um abraço.

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  2. Boa noite, Elizabeth.
    Estes seus posts foram de muto auxílio, pois só quem sofre com moscas volantes sabe como são todas as angústias que você tão perfeitamente descreve. Gostaria, assim como o amigo João Teles, ter seu endereço de e-mail para compartilhar experiências. Preciso muito entrar em contato com você para saber, entender, tentar conviver cada vez mais com as moscas volantes.
    MUITO OBRIGADO E PARABÉNS!

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  3. Obrigada pela ajuda, entrei em pânico ao tentar limpar o olho mas não desaparecia, embora a muitos anos que vivo com moscas volantes, tinha a volta dos 15 anos e por um momento muito curto, deixei de ver, ficou tudo a minha volta preto, como era muito jovem não disse nada a
    ninguém nem aos meus pais, então mais tarde comecei a ver uma coisa que parecia um cortinado rendado, tinha ouvido dizer que eram moscas volantes e que o melhor era tentar esquecer que as via e tentei e consegui mas agora, realmente estou a ver cada vez mais fiz 60 anos a pouco, pensei que podia ser algum derrame,por hoje ter acordado e ter visto no canto do olho ao virar os olhos para a esquerda uma mancha maior, mas pela explicação tão bem dada vou ter que ir ao oftalmologista, para saber o que se passa comigo, o meu muito obrigada, um bem haja

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  4. Oh, doutora, esse texto pareceu tanto comigo… ainda há pouco comentava com um grande amigo sobre as tais moscas e ele riu e disse: “Você e seus achaques… isso é drama, sua manhosa!” Eu também, como o leitor acima, dormi com um fio e acordei com a cabeleira da (cantora) Perla. Enfim, vou seguir o que diz aqui e buscar um oftalmologista. Aliás, eu percebi que de uns tempos pra cá tenho visto flashes laterais, como de uma câmera, que nada incomodam mas têm sido bem frequentes. As tais moscas não me incomodam tanto também (são umas 15 em casa olho), mas a única coisa que temo é aumentem a ponto de impedir a visão (percebi que em determinados ângulos elas embaçam a visão, como se fossem lentes suadas; o curioso é que elas surgiram do nada há poucos dias, e em profusão). Enfim, graças a Deus sou positiva e não me queixo (talvez seja algum tipo de inteligência emocional que eu nem conheça). Aliás, talvez pelo fato de saber que nosso corpo será no futuro reciclado, de toda maneira. O positivismo, junto com uma abordagem espiritualizada da vida, é nosso maior amigo em todos os momentos. Pelo menos têm me servido e muito…

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  5. Tenho moscas volantes que apareceram de repente em meados de novembro passado. em janeiro fui ao oftalmo e nos exames da retina constatou uma inflamação no fundo do olho e depois de exames de sangue constatou a toxoplasmose. Fiz um tratamento de 1 mes com 4 tipos de remedios e dois colirios que foram aos poucos eliminando as moscas volantes até restarem apenas um leve véu. No inicio do mes de maio elas começaram a voltar, menores e menos, mas voltaram. O oftalmo me disse que eram sequelas e que toda vez que eu estivesse em locais muito claros seriam perceptiveis. Tambem tenho os flashs de luz que tb continuam. Vou consultar outro oftalmo para ter certeza que está tudo sob controle, apenas por garantia, pois a inflamação se não tratada leva a cegueira .

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  6. Dra.
    Você parece ser uma pessoa bondosa e humana, parabéns.
    Há dois dias essas tais moscas apareceram na minha vida e na minha vista (segunda-feira). Fiz o mapeamento de retina na terça-feira e refiz na quarta-feira, tanto é o incômodo. Um verdadeiro inferno. Trabalho basicamente com os olhos, preciso ler muito nos meus trabalhos, e não estou conseguindo trabalhar. Estou irritada, ansiosa, deprimida.
    A médica que me atendeu na terça-feira disse que as moscas podem desaparecer ou não. O médico que me atendeu na quarta disse que elas desapareceriam com certeza, pois o cérebro as eliminaria do campo de visão. Ambos me disseram que não era nada demais e que eu não teria de parar de trabalhar. Minimizaram um problema que não é tão simples: não estou conseguindo trabalhar, minha visão está um inferno. Não se trata de moscas, parecem umas anêmonas boiando no meu olho direito.
    Eu lhe pergunto, há quanto tempo a senhora vê moscas? Existe mesmo alguma esperança de que elas desapareçam de uma forma ou de outra?
    Agradeço desde já a bondade em me responder.
    Deus a abençoe.
    Margarida Gonçalves

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  7. Elizabeth, eu poderia ter o privilegio de ter o seu email para compartilhar o que tenho vivido e talvez me desesperado com as floaters? tenho muito a compartilhar…

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  8. Dra.

    Estou muito feliz em conversar com alguém que entende o meu problema. Tenho algumas dúvidas em relação ao aumento delas e exercícios que eu posso fazer (musculação, natação…). Eu parei de fazer exercicios depois que percebi um aumento no número de “moscas”.

    Tenho 25 anos e tenho moscas volantes desde os 18. Mas nunca me acostumei com elas rsssssssss.Até me acostumo um dia ou outro, mas é difícil!

    André Fraga

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  9. Obrigado amigo.
    Acabo de perceber que sofro de moscas volantes desde ontem. Antes. o que era apenas um fio de cabelo, hoje virou uma cabeleira ao vento(vejo fios dançando em minha visão para dos os lados), mas “o que não tem jeito remediado está” e não vou permitir que eles me tirem do sério. Afinal continuo enxergando. Gde abraço.

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    1. Manoel,

      Apenas não se esqueça de que antes de tentar lidar de forma menos penosa (e mais positiva)com as moscas volantes,voce não pode deixar de
      fazer um mapeamento de retina para avaliar as condições da sua retina periferica. Se exite risco de descolamento de retina ou não.Só então
      voce deve tratar do assunto mosca volante da forma como comentou.

      Nunca antes de avaliar o risco potencial!

      Uma coisa de cada vez: primeiro a obrigação de prevenir (o que pode e deve ser prevenido!)…depois a tentativa de minimizar o incomodo visual causado pelos floaters!

      Tudo da medida certa e na hora certa!
      Não deixe de procurar o retinólogo,ok?

      Abs,

      Elizabeth

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      1. oieee nao aguento mais ver coisas estranhas na visao,ja passei por varios oftalmos e retinistas e dizem que nao tenho nada na vista a nao ser uma cicratiz antiga …o que façoooo to ficando doidaaaa…

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