cinetose

Moscas volantes…alguns nem percebem, outros não conseguem conviver!

Tão incômodo quanto o extremo desconforto visual é a convivência diária com outros de nós que não podem avaliar o que nunca sentiram ou viram.

Qualquer um entende e consegue avaliar a angústia daquele que tem uma fratura exposta ou um ferimento que sangra ou está com muita febre. Essas são situações que todos já vimos ou sentimos de perto. Não é algo subjetivo.

Você é capaz de ler num carro em movimento? Consegue viajar olhando as paisagens que mudam rapidamente ou mesmo viajar sentado em direção contrária ao movimento da composição do trem ou do metrô? Não tem enjôo em viagens de barco ou navio de pequeno porte? Então você não sabe do que eu estou falando. Esse texto não acrescentará nada a você e não será uma leitura interessante, talvez.

Não é incomum indivíduos que têm enjôo de movimento (“cinetose”) ouvirem desde crianças que são “enjoados, chatos, sensíveis demais ou pessoas “fracas””. É comum e até compreensível: só conseguimos entender ou sentir empatia em relação àquilo que já experimentamos. Por isso nos agrupamos de forma a reunir iguais a nós. Formamos “turmas”, pertencemos a “tribos”: yuppies, nerds, punks, patricinhas/mauricinhos,etc. Também por isso existem os “grupos de ajuda”, na maioria das vezes criados por portadores, parentes e/ou cuidadores de indivíduos com uma determinada doença ou disfunção.

“Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele” é voz corrente e sábio ditado. Conhecer em profundidade o que nos aflige (seja desconforto físico ou emocional) nos ajuda a conviver com. Ignorá-lo é quase sempre impossível!

No caso das “moscas volantes”, me refiro aqui aos 5% dos indivíduos em que os “floaters” se tornam um problema tão importante (porque constante e de difícil solução) que merece ser analisado mais de perto. Em geral são pessoas portadoras de disfunção vestibular periférica inata. Nesses indivíduos a náusea, tonteira e sudorese fria podem acompanhar muitas vezes a tentativa de manter os dois olhos abertos em presença de “floaters” densos próximos ao eixo visual.

Em alguns momentos do dia ou em determinadas atividades discriminativas visuais, artifícios óticos e visuais podem ser de grande auxilio como na leitura, no uso do computador ou mesmo ao assistir TV. Em alguns dias a gente percebe um avanço na tolerância a essa nova realidade visual. Em outros há um retrocesso e nos sentimos bem pior. É um processo…mais lento ou mais rápido.No final das contas depende de cada um de nós.

O que acontece é que chegam ao córtex (cérebro) imagens diferentes enviadas por cada olho (uma com as moscas volantes e outra sem elas). Para um perfeito equilíbrio e ausência total de desconforto seria necessário que as imagens fossem iguais. Ou o mais próximo possível disso. Isso explica por que muitos têm desconforto ao assistir filmes com tecnologia tridimensional (disparidade de imagens para dar sentido de mais uma dimensão), utilizando óculos 3D. Eles referem náuseas, dores de cabeça, tonteira, sensação de cabeça “oca” ou “zonza”. Possivelmente são portadores de alguma disfunção vestibular (inata ou adquirida). Os mesmos filmes vistos através de óculos 2D que eliminam os efeitos em 3D, eliminam também (não por acaso) os sintomas desagradáveis desses indivíduos.

A imagem chega ao córtex para ser processada junto com informações proprioceptivas (ouvido, labirinto, pele) fornecidas por nossos outros sentidos (tato e audição, p.ex.) e imprimir sensação de equilíbrio ao corpo.

No caso das moscas volantes, enquanto não houver adaptação vestibular (labirinto) a essa nova realidade visual os sintomas podem estar presentes. Em maior ou menor intensidade. E é uma questão de tempo… Está na dependência ainda do tamanho da(s) imagem(ens) negativas agregadas  ao campo visual, assim como da proximidade dos “floaters” em relação ao eixo visual e da higidez vestibular de cada individuo.

Ao fator anatomo-funcional agrega-se ainda o fator psicológico. E é aqui eu me pergunto: “o que veio primeiro, o ovo ou a galinha”?

A ansiedade costuma ser característica presente em portadores de cinetose. Seria o “descompasso” do SNA (sistema nervoso autônomo) existente nesses mesmos indivíduos, o fator etiológico comum à ansiedade e aos sintomas do “enjôo de movimento”? Assim como uma irritabilidade excessiva pode estar presente nas fases iniciais da demência (Alzheimer), possivelmente pelo desarranjo seguido de uma reorganização atípica de algumas reações químicas envolvendo neurotransmissores,a plasticidade funcional neuronal (nesse caso positiva)seria responsável pela adaptação à nova realidade visual. Esta adaptação se traduziria na usência de sintomas em vigência de compensação funcional (o organismo vence mais uma vez!).

Mas, o que fazer enquanto isso?

Dois a cinco por cento dos indivíduos têm eventos neuro-vegetativos desencadeados pelo padrão inato de resposta vestibular aos estímulos visuais comuns (vistos pelos dois olhos), quando em movimento (nesse caso o desequilíbrio). Se além disso uma imagem nova, densa, próxima ao eixo visual e apenas percebida por um dos olhos se soma a esta já difícil equação, maior será a dificuldade deste individuo em se manter equilibrado (tanto no aspecto oftalmológico quanto físico e psicológico).

Mãos geladas, suor frio,náuseas, tonteiras, sensação de cabeça “oca ou vazia” e grande irritabilidade são sintomas que temos que aprender a tolerar (inicialmente) e aos poucos evitar.

Algo pode ser feito…mas o tempo continua sendo o melhor remédio. E no processo de ajuste, controlar a ansiedade e afastar-se (na medida do possível) das tarefas discriminativas visuais (leitura, uso de computador, ver TV em sala iluminada, p.ex. e/ou as que exijam alternância constante entre as distancias de longe e perto – pela maior movimentação dos “floaters” dentro dos olhos).

Sabemos que a vida não vai parar para que nos adaptemos à nova situação e depois possamos voltar ao ponto em que estávamos.Trabalho, vida social, família,a dinâmica da vida continua. E nós temos que nos inserir de alguma forma nela mesmo sendo angustiante em muitos momentos. A palavra de ordem é adaptação. E toda ajuda de que pudermos dispor é benvinda.

Óculos com oclusão total de uma das lentes (oclusor de silicone com ventosa), óculos com oclusão seletiva de uma das lentes (parte da lente recebe um película- fita isolante preta ou outro material que vede completamente a luz-  na parte da lente com a qual visualizamos a maior parte do tempo o floater que nos incomoda (mais à direita do centro,mais à esquerda, ou acima,etc).

Outra opção é usar o artifício de desenhar na lente imagens similares aos floaters para “iludir” o cérebro e minimizar o incomodo. Quando ele(s) se movimentar(em) (que é quando fica mais difícil de ser(em) tolerado(s), outras fibrilas desenhadas nas lentes reduzirão a percepção do movimento deles.

Existem muitas variações possíveis (do ponto de vista ótico) em relação a como minimizar a sensação de desconforto visual e vestibular. Nenhuma delas corresponde por si só a alternativa única a ser utilizada em cada caso.  Segundo observação durante as experimentações que fiz, a alternância entre os artifícios óticos, de acordo com a tarefa visual, foi a melhor forma de ter maior conforto no período inicial, logo após o episodio agudo de DPV.

Experimentei todas. Algumas me deram alivio em determinados momentos…em outros não. Existiram (e existirão ainda) dias melhores e dias piores. Nenhuma das medidas terapêuticas é eficiente o tempo todo nem satisfaz plenamente. São medidas paliativas, enquanto a natureza (organismo) tenta fazer o reparo da melhor forma possível.

A vitrectomia é um procedimento invasivo que parece bastante atrativo e “salvador”, à primeira vista. Ela eliminaria completamente as moscas volantes: a aspiração dos floaters removeria a causa dos fenômenos entópticos e devolveria a normalidade visual ao individuo. Fácil assim?

Existem riscos e benefícios… Afinal, é como tudo funciona, não é mesmo?

Não existe apenas bem ou mal. É tudo um pacote, um “combo”. O que prevalecerá ao longo do tempo ninguém sabe. A emenda será pior do que o soneto? Não saberemos se não experimentarmos, dirão uns e outros… Hoje eu ainda não quero pagar para ver.

Pode ser que com mais tempo de incomodo me exaspere e acabe me submetendo à vitrectomia a despeito dos possíveis efeitos colaterais. Quando (e se) o fizer será apenas após ter dado tempo suficiente ao organismo (e à homeostasia) para desenvolverem uma possibilidade de reequilíbrio visual.

Existe tempo para tudo. Nascer, crescer, adolescer, ficar adulto, dar origem a outra vida e assim por diante. Sempre podemos de alguma forma alterar a ordem das coisas, claro, mas em relação aos mecanismos naturais de manutenção da saúde e prevenção das doenças, tudo tem seu tempo certo e a ordem dos fatores pode alterar sim o produto final.

Por mais atraente que nos pareça o rápido retorno à “normalidade”, sempre haverá um preço a ser pago. E talvez não estejamos preparados para uma eventual situação bem pior do que a original. Em outras palavras, “a emenda pode sair pior do que o soneto”, no longo prazo.

Do ponto de vista da binocularidade e do conforto visual voltei a engatinhar. Espero estar correndo logo, logo!

Essa reflexão a respeito dos floaters se deveu à necessidade de dividir com outros uma experiência pessoal recente. Espero que lhes seja de alguma ajuda!

Moscas volantes…como lidar com elas?

Ainda sobre moscas volantes…

A quem interessar possa esse é um relato pessoal a respeito da necessidade de lidar com o desconfortável sintoma das “moscas volantes”, logo após o DPV (descolamento posterior de vítreo) agudo.

Como não tenho nenhuma lesão retiniana (degeneração periférica de risco para descolamento de retina) que possa justificar a rotura retiniana que deu inicio aos meus sintomas creio que a seqüência abaixo descreve melhor a sucessão de eventos que levaram ao meu DPV agudo (com hemorragia vítrea secundária à rotura retiniana).

Devido a um acidente de carro (aos 18 anos) tenho DPV total assintomático (98% do tempo) no olho direito. Como já tenho 59 anos não é incomum a liquefação vítrea. Nesse caso o rearranjo do gel em fibrilas pode ser resultar em grumos mais ou menos densos que acabam vez por outra atravessando o eixo visual e incomodando transitoriamente a visão. Isso se dá de forma lenta e gradual e na maioria das vezes o indivíduo só percebe os “floaters” quando presta atenção e busca ativamente por eles ou quando está muito ansioso e/ou tenso.

Em casos de DPV agudo em que se formam condensações mais densas e bem próximas ao eixo visual é mais difícil a recuperação funcional.A visão binocular é requerida o tempo todo e o incômodo da imagem negativa (floater) móvel, próxima ao eixo visual ou dentro dos 10º centrais do campo visual, pode ser extremamente desconfortável para não dizer incapacitante. Principalmente nos indivíduos que são portadores de “enjôo de movimento” ou cinetose em que paralelamente ao desconforto visual podem acontecer náusea, tonteira e sudorese fria, reproduzindo em parte os sintomas da disfunção vestibular periférica da qual são portadores.

Muitos pacientes perguntam aos médicos por que “do nada surgiram os sintomas”…? Difícil responder na medida em que todo e qualquer evento orgânico pode ser o “trigger”, o desencadeador da mudança na estrutura do corpo vítreo, além do próprio envelhecimento.

Bem, quatro meses antes do DPV tive um episódio de extrema fadiga, astenia e estado febril que me deixou prostrada por quatro dias. Não havia nenhum sinal característico de virose respiratória (espirros, coriza, tosse ou congestão nasal). No quinto dia amanheci muito bem disposta e então fui ao médico. Fiz raios X de tórax e exames de sangue. Diagnosticada uma pneumonia e com todos os marcadores hepáticos alterados indicando alteração hepática. Então a recomendação foi de mais uma semana de repouso.Depois disso eu já estava pronta para voltar à ativa.

Mas dois meses depois comecei a perceber flashes à noite. Eles foram aumentando em intensidade e três semanas depois, subitamente aconteceu o DPV. Em resumo, provavelmente o estado infeccioso (causou uma vitreite leve que acelerou a liquefação e desestruturação das fibras de colágeno do corpo vítreo.

A reorganização do colágeno forma fibrilas que tomam formas as mais diversas, soltas ou agrupadas, que se movem e flutuam dentro do globo ocular a cada movimentação dos olhos. Quando o vítreo se solta completamente das suas inserções o DPV é dito total. Mas na maior parte das vezes ele (DPV) é parcial e podem existir micro adesões à retina e/ou ao próprio disco óptico.

Quando alguns desses pontos (micro adesões) permanecem ligados à retina elas, além de serem responsáveis pelos “flashes” quando tracionam a retina durante o movimento dos olhos, se as fibrilas condensadas se mantém posicionadas bem próximas ao eixo visual, atrapalham a visão e podem incomodar muito o indivíduo.

Ao retinólogo cabe tratar a rotura retiniana (laserterapia), minimizando o risco de um descolamento de retina (e conseqüentemente evita uma baixa visual importante). Além disso, monitorizar  sistematicamente eventuais pontos de tração (percebidos como “flashes”). Isso é o que ele (retinólogo) pode fazer. E faz muito bem!.

Mas, e quando os sinais e sintomas visuais não desaparecem? E em relação às “moscas volantes” (no eixo visual ou para centrais) que dificultam a leitura, o uso do computador ou qualquer outra tela em ambiente iluminado? O estresse aumenta a percepção dos “floaters” e o incomodo visual aumenta a ansiedade e o estresse. Um círculo vicioso… O que pode ser feito enquanto as traves não se rompem e pelo efeito gravidade se depositam no segmento inferior do globo ocular e então passam a não interferir constantemente nas atividades diárias?

E de quanto tempo estamos falando aqui? Podem ser dias, meses… Cada caso é um caso.

A gente fala (para o paciente) e ouve do médico (enquanto paciente) que…vai passar…é uma questão de tempo…”  “Não se preocupe e aprenda a lidar com a usa nova realidade”. “Procure não se estressar, se for necessário use um ansiolítico e/ou procure um profissional (psicólogo ou psiquiatra) para ajudá-lo nesta etapa”

Essa é a orientação que a maioria de nós, médicos, dá ao seu paciente com DPV agudo com  sintomatologia intensa e incapacitante.

Mas a vida segue e a necessidade de retomar a rotina é iminente. O que mais pode nos ajudar nessa fase transitória (ainda bem! Ufa!) em que esperamos que a natureza aja e nos “cure”? Essa é uma espécie de fase de convalescença. O que fazer, quais as possibilidades?

Além do sintoma visual (“mosca volante”) e da irritabilidade e ansiedade que ele gera, nos indivíduos portadores de cinetose (“enjôo de movimento”), a situação pode levar a um componente sintomático extra: o enjôo (ou estado nauseoso), quando os olhos são submetidos a atividade motora  de movimentação excessiva como na leitura, com o vaivém dos olhos para acompanhar as linhas do texto. Assistir TV por duas ou três horas é totalmente diferente de alternar a visão de perto e a de longe a cada instante, pelo mesmo tempo de duas ou tres horas. Um exemplo é quem trabalha muito com a visão de perto, mas tem que interagir com outros indivíduos ao mesmo tempo. Ele olha para frente e para baixo, para perto e para longe ininterruptamente. Impossível nessa fase, a não ser que se mantenha ocluído o olho com floaters e o individuo tenha uma rápida adaptação à condição monocular. Para alguns isso é tão difícil de suportar quanto os floaters no eixo visual com alternância constante da visão perto/longe.

Esses mesmos indivíduos que costumam apresentar hiper-reatividade autonômica, muitas das vezes são portadores (também) de migranea (enxaqueca) podendo apresentar perfil ansioso e tendência à depressão e pânico. Tudo faz parte de um “pacote”, inato e evolutivo  (caso ele, indivíduo, não consiga modular esse tipo de comportamento ao longo da vida). Ou seja, se não aprende a conviver com suas “diferenças” em relação ao demais indivíduos. Afinal, cada um aprende a identificar “onde aperta o seu calo” e viver de forma a minimizar os inconvenientes do DNA que cada um traz consigo à vida.

Existem recursos ópticos (óculos ou lentes de contato) que podem ser de alguma (ou muita) ajuda nessa fase. Aqui novamente, cada caso é um caso. O diâmetro da pupila, a exata localização do “floater” que mais incomoda e em que direção do olhar ele parece estar anulado são dados importantes a serem levados em consideração para melhor ajudar o indivíduo a aliviar seus sintomas.

 

É interessante a ajuda sim, mas sabendo que é um recurso temporário e não significará conforto total. Pode ser de grande ajuda no sentido de criar uma situação que, se não é a ideal, pelo menos nos ajudará a nos mantermos ativos e mais confortáveis no dia a dia durante esta fase.

Tanto óculos como lentes de contato especiais podem gerar alguns inconvenientes que devem ser discutidos com o médico assistente e avaliados caso a caso. E podem ser de grande alívio em alguns momentos (não todos, infelizmente).

Resumindo, nesse momento em que já foi feito diagnostico e tratamento da lesão anatômica (pelo retinólogo), para alguns de nós será necessária ainda a intervenção de outros profissionais para a retomada de um dia a dia mais confortável. Oftalmologistas e óticos para a melhor solução ótica, otorrinos e/ou fisioterapeutas (reabilitação vestibular) para possível ajuda em relação a náusea  e/ou tonteira, psicólogos e/ou psiquiatras para ajudar a minimizar a ansiedade.

Alguns desses recursos podem ser de grande ajuda. E mesmo que apenas uns poucos tenham uma sintomatologia tão florida quanto a descrita acima e sintam extremo desconforto e dificuldade na reabilitação visual, é para esses poucos que fiz este relato. E espero sinceramente tê-los ajudado a entender e aprender a contornar alguns sinais e sintomas gerados pelo DPV, situação clínica tão comum a todos os indivíduos, mas que gera bem mais desconforto a alguns poucos.

Fale com o seu oftalmologista. Ele será seu parceiro nesta empreitada!

E não se esqueça que teve sorte, não descolou a retina e manteve a sua acuidade visual. Apenas terá um desconforto por um período de tempo variável. Lembre-se sempre que poderia ter sido bem pior! Não se queixe tanto… arregace as mangas e procure o melhor ajuste para conseguir administrar melhor esse período.

Você vai melhorar!

Óculos como causa de desconforto visual…

Provavelmente a maioria de nós já passou pelo desconforto de colocar óculos recém prescritos e não conseguir usá-los. E muitas vezes nos perguntamos (e questionamos o óptico e o oftalmologista) a respeito do que deu errado.

Quando mandamos fazer os óculos para nos ajudar em alguma dificuldade pontual em relação à visão de longe ou de perto ou para reduzir o cansaço visual no dia a dia de trabalho esperamos colocá-los e ver resolvidos todos os problemas dos quais nos queixamos quando vamos à consulta oftalmologica,não é mesmo?

Vamos então analisar as possíveis razões para visão distorcida, embaçamento, náusea, tonteira e tantos outros sintomas de inadequação aos óculos prescritos:

Muitas vezes o desconforto está relacionado aos ajustes imprecisos nos óculos prescritos. Às vezes prescrevemos mais grau do que o necessário, às vezes menos. Outras vezes está tudo correto, mas o indivíduo não é capaz de compensar um “desvio mínimo” dos seus olhos ( alteração na musculatura extra-ocular) a não ser que sejam alterados os centros ópticos das lentes. Então, já compensado o desvio, volta a ter conforto na leitura.

Outra possibilidade é o individuo de meia idade, usuário de lentes multifocais, que não consegue ficar muito tempo lendo no computador. Basta fazermos um par de óculos para serem usados tão somente quando sentado em frente ao monitor que, respeitada a distância utilizada para esta função ele voltará a ter conforto. Tarefas que de- mandam ficar um certo tempo utilizando uma determinada posição do olhar exigem perfeito controle motor. Quando ele não existe, surgem as queixas a respeito da visão de perto.

Mais correto seria ajustarmos a musculatura às exigências pontuais. Caso se alterem as condições de trabalho, deveria ser feito um reforço da prontidão binocular. Imagine um indivíduo que passa da função de motorista para a de digitador. É como um sedentário que de repente vai participar de uma maratona. Ou não consegue terminar a prova ou se lesiona. Há que haver um preparo, assim como quando nos alongamos antes e depois de qualquer exercício físico para mantermos o equilíbrio dos músculos e ligamentos envolvidos no trabalho. No caso dos olhos, a terapia ortóptica ou fisioterapia visual é responsável pelo reequilíbrio da binocularidade. A perfeita cooperação entre os dois olhos é que torna possível, por exemplo, a visão de profundidade ou estereopsia. Na prática isto se traduz na facilidade em perceber a distância entre os carros ao dirigir, em conseguir ver em 3D e outras tantas qualidades da visão das quais nem tomamos conhecimento a não ser que as percamos.

Outras vezes temos dificuldade em usar lentes multifocais

 

 

Alguns de nós não conseguem boa adaptação a este tipo de lente. Algumas vezes por causa de inadequação da armação ou do tipo de multifocal, mas muitas vezes por montagem inadequada. Isto acontece quando parâmetros como centros ópticos, altura de montagem e distância nasopupilar não estão de acordo. As lentes progressivas, ou multifocais, têm em seu desenho uma área em que é priorizada a visão de longe e outra para a de perto. Um “corredor óptico” possibilita a visão intermediária e as zonas mais distantes do centro possuem aberrações que fazem com que nestas áreas a visão não seja tão nítida ou seja mesmo desconfortável. Quando os parâmetros usados na montagem destas lentes são inadequados passamos a olhar por pontos que não são os ideais para cada função pré-determinada. Teremos então queixas na visão de longe, ou na de perto e/ou uma gama de outras queixas visuais.

Excepcionalmente o que pode acontecer também é que nascemos, alguns de nós,  com uma particularidade em relação ao equilíbrio. Temos o chamado enjôo de movimento” ou “motion sickness” ou ainda cinetose, em termos técnicos. Alguns quando crianças enjoávamos em viagens de carro, mas na idade adulta não o fazemos mais. A maioria dos adultos só manifesta desconforto quando lê dentro de um carro ou ônibus em movimento. Todos estes sintomas são expressões de um mesmo desajuste que, por menor que seja, fica ampliado sobremaneira quando tentamos usar lentes multifocais. Exatamente por uma exigência implícita deste tipo de lente: que os mecanismos de compensação da visão binocular, principalmente os ligados à propriocepção e ao equilíbrio estejam presentes e funcionando harmonicamente.

De uma forma simplista podemos dizer que a propriocepção é a qualidade que capacita o organismo a se orientar no espaço sem precisar se basear apenas no estímulo visual. Entre os sistemas sensoriais, o visual, o auditivo e o de propriocepção são os que têm importância maior na capacidade motora e no equilíbrio do individuo.

Os indivíduos que apresentam cinetose têm características de prejuízo (maior ou menor) do sistema sensorial em relação ao equilíbrio. Neles poderíamos antecipar uma dificuldade maior na adaptação aos multifocais ou mesmo inadaptação a qualquer tipo de lente progressiva ou regressiva.

Além da terapia ortóptica para reforçar as condições ideais de binocularidade, a reabilitação vestibular (através da fisioterapia) pode tentar minimizar os sintomas de inadaptação, possibilitando o uso das lentes progressivas com algum conforto, nas situações em que não se pode evitar seu uso. Mas, nem sempre é possível. Neste caso o uso de bifocais específicos para determinados casos ou mesmo lentes separadas para cada atividade (dirigir, ler e usar o computador por muitas horas, por exemplo) são as soluções disponíveis.

Há também o recurso do uso de lentes de contato (para quem se adapta bem, é claro) para corrigir o “grau de longe”, e óculos para a leitura que seriam então usados sobre as lentes de contato, com grau diferente dos óculos de leitura costumeiros. Quando não se está usando lentes de contato para longe, o grau necessário para leitura é diferente daquele dos óculos que se coloca sobre as lentes. Isto porque o grau de perto é a soma do grau de longe (que já estaria nas lentes de contato em caso de uso das mes- mas) com o valor da perda da acomodação referente à faixa etária do individuo.

Complicado?

Um exemplo: você usa +1.50 dioptrias para enxergar melhor de longe e tem 47 anos. A sua dificuldade de acomodação deve ser em torno de 1.00 dioptria. Então seus óculos de perto para ler, sem lentes de contato, terão a graduação de +2.50 dioptrias. Quando estiver usando suas lentes de contato para longe (+1.50 dioptrias), se quiser ler bem terá que usar óculos (para leitura) de +1.00 dioptrias. Se utilizar seus outros óculos de +2.50, verá que é capaz de enxergar sim, mas a uma distância muito próxima do papel, porque a lente irá funcionar como uma lupa. Não estará apropriada para você ler à distancia padrão de leitura (37 a 45cm ).

Resumindo:

O conforto visual depende de fatores distintos e interdependentes como a lente que corrige a ametropia (grau) existente, a identificação da melhor opção de correção óptica (tipos de lentes de óculos e formas de montagem) em cada caso e uma perfeita coordenação motora ocular (prontidão binocular).

E é do trabalho conjunto do oftalmologista, do óptico e do profissional de ortóptica (algumas vezes também do fisioterapeuta, para auxiliar na reabilitação vestibular) que surge a melhor solução para cada caso.

E o objetivo de todos estes profissionais é um só: melhorar a qualidade de vida de todos nós.